Um dia, quando Nan-tch'ouan vivia numa pequena cabana no coração das montanhas, um estranho monje fez-lhe visita no momento em que ele se preparava para ir trabalhar nos campos. Nan-tch'ouan acolheu-o dizendo-lhe:
- Peço-vos, fazei como em vossa casa. Podereis cozer tudo o que quiserdes para o vosso almoço, e depois trazei-me os restos tomando o caminho que conduz ao local onde trabalho.
Nan-tch'ouan trabalhou duramente até ao fim da tarde e reentrou em sua casa completamente esfaimado. O estrangeiro havia preparado um delicioso repasto, depois havia atirado todas as provisões e quebrado todos os utensílios da cozinha. Nan-tch'ouan encontrou-o placidamente sonolento na choupana vazia, mas quando ele estirou o seu corpo fatigado à beira das costas do estrangeiro, este levantou-se de súbito e abalou. Anos mais tarde, Nan-tch'ouan contou este episódio aos seus discípulos, acrescentando-lhe este comentário:
-Era verdadeiramente um monje excepcional, ainda hoje lhe sinto a falta.
in Cent Zen Kôans
"(... )acrescentando-lhe este comentário(...)"
Humor e beleza
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Ready-made. A "Roda de Bicicleta" de Marcel Duchamp. 1913, madeira e metal, altura 126cm


Se rodarmos uma roda de bicicleta, observamos que, consoante as variações de aceleração, o efeito perceptivo da rotação varia ao ponto de por vezes sermos induzidos a pensar e/ou a percepcionar (?) que a roda gira em direcção oposta. Isto vê-se nas jantes modernas niqueladas das rodas dos automóveis ou até nas rodas das carroças nos filmes do Far West, p.ex. Variando estes efeitos ao ponto de os raios das rodas, neste caso os da bicicleta, parecerem por vezes parar ou até oscilar numa e noutra direcção.
No entanto, referimo-nos aos raios da roda da bicicleta... E estes, oscilam, detém-se, invertem a direcção enquanto raios reais na sua virtualidade de movimento.
Guinamos assim da ilusão perceptiva para a percepção de que, precisamente, essa ilusão de percepção é ainda uma ilusão? Talvez...
maximizar
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"Homenagem a Foz Côa", 80x116cm, téc.mista s/tela, 1999.
Painting by Luís Tavares
Colecção privada
Curiosamente esta e outra obra do autor foram vendidas de imediato a um coleccionador, ao entrarem na galeria Pirâmide sob um forte temporal, juntamente com uma pintura de Noronha da Costa e uma outra de Augusto barros.
Um dia, Nan-tch’ouan tardava a tomar o seu assento no refeitório. Houang-po, seu discílpulo e monje principal, tomou então o lugar do mestre em vez do seu.
- Este assento pertence ao mais velho monje do mosteiro. Que idade tens na vida budista? Perguntou o mestre.
- A minha idade remonta ao tempo do Buda pré-histórico, respondeu Houang-po.
- Então, acrescentou Nan-tch’ouan, és meu neto.
Chega-te para lá.
Houang-po cedeu o lugar ao mestre, mas tomou o assento precisamente ao seu lado.
Op.cit.
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Manjushrî passa o portal
Um dia, Manjushrî deteve-se do outro lado do portal quando Buda o apelou.
"- Manjushrî, Manjushrî, porque não entras?"
"- Não vejo nada de fora deste portal.
Porque entraria então?" respondeu Manjushrî.
in Cent Kôans Zen, commentés par Senzaki, Paris, Albin michel, Spiritualités vivantes
Um dia, Manjushrî deteve-se do outro lado do portal quando Buda o apelou.
"- Manjushrî, Manjushrî, porque não entras?"
"- Não vejo nada de fora deste portal.
Porque entraria então?" respondeu Manjushrî.
in Cent Kôans Zen, commentés par Senzaki, Paris, Albin michel, Spiritualités vivantes
sexta-feira, 2 de maio de 2008
O canto da cabana de tecto de palha
"Construi um retiro solitário de palha onde não há nada de valor.
Depois de comer, espojo-me e dormito.
Quando a cabana foi terminada, a erva brava apareceu.
Agora ela alastrou sobre a cabana e recobriu-a.
O homem no retiro solitário vive aprazivelmente
sem entrave interior nem exterior.
Lá, aonde vivem os homens vulgares, ele não quer viver.
O que amam as gentes comuns ele não partilha.
Se bem que a choupana seja pequena, ela contém o universo inteiro.
Em cerca de dez pés quadrados um velho homem ilumina as formas e a sua essência.
Um bodhisattva do Grande Veículo dispõe de uma fé absoluta.
Os homens do mundano não podem impedir-se de duvidar:
Esta choupana perecerá ou não?
Perecível ou não, o mestre original frequenta-a
E não reside nem no norte, nem no sul, nem a este, nem a oeste.
Enraizado na perseverança, isso não poderá ser suplantado.
Uma janela brilhante sobre abetos verdes não pode ser comparada
Nem aos palácios de jade nem às torres rubras.
Permanecendo assim, de cabeça sobrevoada, todas as coisas estão em repouso.
Assim, o monje das montanhas, de tudo nada mais compreende.
Vive lá, aonde mais nenhum esforço faz para se libertar.
Quem poderia com arrogância dispor de solo-de-assento para seduzir discípulos?
Dirijam vossa luz para o interior e façam meia-volta.
A fonte infinita e inconcebível não pode ser afrontada nem evitada.
Reencontrem os velhos mestres e sejam intímos com seu ensinamento.
Atem as ervas para construir uma tenda e não a abandonem jamais.
Deixem passar os séculos e distendam-se plenamente.
Abram as vossas mãos e marchem inocentemente.
Os milhares de mundos e a infinidade de conceitos
Não existem senão, somente, para vos libertar sob a choupana,
Aqui e agora não se evadam deste saco de pele."
Shitou Xiqian (700-790)
In: Pierre Crépon, Les Fleurs de Bouddha, Paris, Albin Michel, 1991, p.261.
Versão-tradução-livre: L.B.T.
Depois de comer, espojo-me e dormito.
Quando a cabana foi terminada, a erva brava apareceu.
Agora ela alastrou sobre a cabana e recobriu-a.
O homem no retiro solitário vive aprazivelmente
sem entrave interior nem exterior.
Lá, aonde vivem os homens vulgares, ele não quer viver.
O que amam as gentes comuns ele não partilha.
Se bem que a choupana seja pequena, ela contém o universo inteiro.
Em cerca de dez pés quadrados um velho homem ilumina as formas e a sua essência.
Um bodhisattva do Grande Veículo dispõe de uma fé absoluta.
Os homens do mundano não podem impedir-se de duvidar:
Esta choupana perecerá ou não?
Perecível ou não, o mestre original frequenta-a
E não reside nem no norte, nem no sul, nem a este, nem a oeste.
Enraizado na perseverança, isso não poderá ser suplantado.
Uma janela brilhante sobre abetos verdes não pode ser comparada
Nem aos palácios de jade nem às torres rubras.
Permanecendo assim, de cabeça sobrevoada, todas as coisas estão em repouso.
Assim, o monje das montanhas, de tudo nada mais compreende.
Vive lá, aonde mais nenhum esforço faz para se libertar.
Quem poderia com arrogância dispor de solo-de-assento para seduzir discípulos?
Dirijam vossa luz para o interior e façam meia-volta.
A fonte infinita e inconcebível não pode ser afrontada nem evitada.
Reencontrem os velhos mestres e sejam intímos com seu ensinamento.
Atem as ervas para construir uma tenda e não a abandonem jamais.
Deixem passar os séculos e distendam-se plenamente.
Abram as vossas mãos e marchem inocentemente.
Os milhares de mundos e a infinidade de conceitos
Não existem senão, somente, para vos libertar sob a choupana,
Aqui e agora não se evadam deste saco de pele."
Shitou Xiqian (700-790)
In: Pierre Crépon, Les Fleurs de Bouddha, Paris, Albin Michel, 1991, p.261.
Versão-tradução-livre: L.B.T.
quinta-feira, 1 de maio de 2008
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